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7.2.14

aqui fui feliz

O blogue regressa em força (sim, isto é uma promessa/garantia) com um texto agridoce. Hoje foi o meu último dia de estágio. 9 meses passaram a correr, parece que foi ontem que me ligaram com a proposta. Parece que foi ontem que me encontrei pela primeira vez com a pessoa que viria a ser minha editora. A felicidade era tanta que a abracei enquanto proferia obrigados sem fim por me ter dado uma oportunidade.

Foram 9 meses de aprendizagem, de desafios, de gargalhadas imensas. Conheci pessoas fantásticas. Que me ensinaram, aturaram, ouviram, ajudaram. Sempre com um sorriso e com toda a boa vontade possível. Levo-as comigo, em conjunto com o silêncio da redacção às 8 da manhã, as 'regras do online', a pilha interminável (e em constante crescimento) de jornais desportivos na secretária do H., o sapato amarelo na mesa da L., a vista magnífica do terraço, entre outros tantos apontamentos que podiam ser referidos.

A todos, o meu Obrigado. Por tudo.



21.4.12

há manhãs assim





Ontem, depois de ir a uma entrevista de estágio, decidi passar pelo Campo Pequeno para repor a falta de açúcar no sangue e informar-me do que se passa no país e no mundo. Para tal, nada melhor que um belo Red Velvet, o meu cupcake preferido , e alguma literatura especializada. 


P.S. - Sim, a entrevista correu bem e as senhoras foram extremamente simpáticas. Disseram que avisavam mesmo que não tivesse sido seleccionada. Either way, I'll get a letter. Tudo a fazer figas, meu povo!

15.10.11

diário de bordo

Ainda é de noite mas as pernas já estão bem acordadas. Os passos apressados de quem não se pode dar ao luxo de perder o comboio enchem os ouvidos de quem já tinha chegado. Nem o sol se levantou e já anda tudo numa correria, afirma em surdina uma senhora a quem os dedos sem força já não permitem o apoio seguro no corrimão das escadas que dão acesso à estação. Com um simples gancho preto a contrastar no meio dos seus cabelos brancos, a senhora vai ficando para trás, as suas palavras abafadas pelo estrondo que a pressa das pessoas gera. 
No comboio, o frenesim de arranjar um bom lugar torna as personalidades mais calmas nas mais territoriais. É como se estivessem a jogar o jogo da cadeira e, de repente, a música parasse. Correm em direcção ao primeiro banco disponível e, num movimento brusco, sentam-se e erguem o pescoço altivamente, com um ar vitorioso. Fitam a pessoa que ficou de pé com o mesmo olhar que os vencedores olham os vencidos no final de uma guerra. 
São 7 da manhã. O único som que invade a carruagem é o barulho do comboio a travar sobre os carris. Chegámos à primeira paragem do percurso, uma cidade que já viu melhores dias, que já teve aquilo que todas as cidades aspiram: vida. Entra um rapaz de cabelo preto e comprido e uns óculos de massa azuis-escuros que segue até ao fundo da carruagem para se sentar no único conjunto de bancos que está livre. Na mão, quase tapada pela manga da camisola vermelha que envergava, um dos grandes clássicos literários: Thomas Elliot. Marcado a meio, e já bem gasto, as questões e comentários começam a invadir a cabeça de quem vê o jovem passar: Tão novo e já a ler Elliot? Será que o livro é dele? Deve ser para um trabalho, de certeza… 
No lado oposto ao que o rapaz se sentou, está uma morena que vai redigindo no seu caderno cor-de-rosa. Com a mão esquerda elegantemente apoiada no queixo, deixa a caneta dançar ao longo das folhas A4 que, se pudessem falar, contariam histórias sem fim, de reis e rainhas, princesas e sapos, dragões e cavaleiros. Histórias com que todas as meninas adormecem, ao longo da sua infância, e que as acompanha durante toda a sua vida. Ao seu lado, um rapaz prepara-se para recuperar o sono interrompido pelo despertador, enquanto selecciona a banda sonora que o vai acompanhar durante os próximos 30 minutos e procura os auscultadores. Mais um que se vai alienar do mundo, penso, enquanto desvio o olhar para um conjunto de quatro senhores que, apesar da idade aparentada, têm o espírito de quem acabou de fazer 20 anos. Uns, de mãos apoiadas nos joelhos, outros a bracejar violentamente enquanto acordam a carruagem com as suas gargalhadas profundas. 
Ao meu lado, uma aparente académica, que desde o início da viagem está a tentar avançar, a todo o custo, numa sebenta universitária. Medicina, parece-me. A panóplia de cores que adornam as folhas que a estudante relê enquanto desvia os seus cabelos ruivos, que lhe teimam em tapar a vista, dão a entender que a matéria já está estudada mas não completamente dominada. De repente, suspira, levanta a cara e desvia o olhar para a janela, passando a acompanhar o movimento das casas e das árvores, que tão depressa apareciam como desapareciam. 
Lá mais à frente, uma controvérsia recatada entre o que parece ser um casal. A mulher quer manter a conversa em dia e o homem quer descansar. Depois logo dizes que estás cansado e também não falas, ou pensas que não te conheço? 
Este aqui mais perto, entre os 40 e os 50 anos, vai tomando conta do que se passa fora do comboio, do que se passa no mundo. Folheia o jornal de modo firme e a uma velocidade constante, como quem já não espera grandes surpresas por parte de quem manda ou deixa de mandar. 
Quando dou por mim, já estamos no fim da viagem. A morena guarda o seu caderno na mala e encaminha-se para a porta, enquanto tenta manter o equilíbrio que se espera de alguém que esteja de saltos. O casal, de mãos dadas, aguarda, expectante, que o botão da porta fique verde para que a rotina possa prosseguir. A estudante de Medicina e o rapaz com o livro de Thomas Elliot também se encontram no meio de uma multidão que não se conhece de lado algum mas que já é familiar entre si. 
A porta abre-se. É tempo de seguir com o dia, no mesmo passo acelerado com que o começámos.

10.10.11

a curiosidade matou o gato

No DN deste Sábado saiu uma notícia sobre o nosso estimado Presidente da República e a sua participação, considerada extremamente activa, na rede social do Twitter. Para quem não gosta de ler muito, ou mesmo para quem gosta mas não está com a mínima pachorra, isso arranja-se: é só clicar aqui e apreciar os 2 ou 3 parágrafos disponíveis. Mas nós aqui no blogue (oh pra mim, sou tão importante que até já uso o plural majestático) gostamos de prestar um bom serviço informativo, sem qualquer tipo de censura, seja a lápis azul ou através de um clique de um rato. Portanto, rejubilem, oh povos batei palmas: a notícia será publicada integralmente aqui, neste cafofo cibernético. E mais, também haverá direito a uma análise meticulosa das partes que nos parecerem mais relevantes. Eu se fosse à CNN metia-me a pau...

Cavaco Silva é o "mais curioso dos líderes"
Twitter. É o Presidente que mais segue outros chefes de Estado. Mas também duas "sex shop".
Pronto, ainda agora começou e isto já promete. Mas reparem, eu até percebo o porquê de ele seguir duas lojas destas. Entre deslocações oficiais, encontros com chefes de Estado que não lembram ao menino Jesus e ter que aturar velhos e velhas por esse Portugal fora, que devem conseguir mastigar bolo-rei com a boca mais fechada do que o próprio... Vá, vocês também não procurariam um escape a toda esta logística presidencial? Pois está claro que sim, com certeza. 

O Presidente da República está entre os chefes de Estado que mais uso faz da rede social do Twitter, analisou a revista Wired, especializada em ciência e tecnologia, na sua edição britânica. O artigo sobre "diplomacia internacional" pelo Twitter, divulgado no número de Agosto, mostra que líderes mundiais se seguem entre si. E aqui mora uma surpresa - Cavaco Silva está em destaque. Referido como o "mais curioso dos líderes", Cavaco segue, de forma unilateral, o que dizem 69 outros chefes de Estado. Mas o Presidente é seguido reciprocamente por duas "contas" oficiais: a do primeiro-ministro e do Presidente da Coreia do Sul - cujos perfis se encontram totalmente em coreano. Para além do Presidente da República, que segue 290 perfis, a lista de líderes mais activos nesta rede social também inclui Barack Obama (o líder americano tem mais de 10 milhões de seguidores), o "número 10" de Downing Street (sede do Governo britânico) e o Presidente da Bulgária.
Bom, vamos lá a ver se nos entendemos. Ponto 1: para mim, o facto do homem estar em destaque por alguma coisa positiva já é notícia suficiente. Ponto 2: não deixa de ser irónico o número de líderes que o Presidente segue, tendo em conta que a notícia fala de sex shops. Ponto 3: oh Aníbal, vê se acordas para a vida. Ninguém te curte homem! Nem a Dilma te segue, e ela fala a mesma língua que tu (salvo seja). Não percebes uma indirecta quando ta metem à frente? Os únicos que te seguem são coreanos... COREANOS! Se o gabinete de imprensa às vezes nem português entende, vai entender coreano? Fantástico. Ponto 4: alguma vez na vida, o bendito do Cavaco haveria de estar na mesma lista que o Barack Obama, nem que fosse por causa das redes sociais. 

Apesar do protagonismo dado ao Twitter de Cavaco Silva, o perfil oficial da Presidência também é mencionado na revista, que é seguido, por exemplo, pela Comissão Europeia e Secretaria de Estado de Comunicação do Governo espanhol. A maior surpresa estás nas contas que Belém segue. Para além dos perfis institucionais e outros pessoais, a Presidência segue também duas sex shop. Entre organizações não governamentais (DoSomething, Agir Hoje), perfis com conotações partidárias (JSD Portimão, PS Madeira) e contas institucionais (Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa, Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação), o Twitter oficial da Presidência acompanha as duas lojas de produtos eróticos que figuram entre os 8029 perfis - a Love Shop Sex Shop e a Anjos do Pecado.
Ora então... Ao menos o Twitter da Presidência é mais conciso. Para não se arriscar a passar a vergonha de ser seguido apenas por coreanos, a estratégia é simples: Belém não segue ninguém, Belém é seguido. É outro nível meus caros leitores. A Presidência tem mais que fazer do que andar à procura de todos os outros chefes de Estado para os seguir nas redes sociais. Mas tem de se dar o desconto: com ou sem líderes mundiais, para o figurino não ficar totalmente estragado, temos ONG's, perfis partidários, contas institucionais e sex shops. Exactamente, sex shops. Que se dane a diplomacia, seguir lojas eróticas é que é. Toda a gente quer, toda a gente gosta. 

Sediada em Santarém, a primeira loja é a que tem a página mais actualizada, tendo o seu último acesso a data de 1 deste mês. Já a segunda loja, situada em Matosinhos e que se apresenta na plataforma social como "a primeira sex shop em Portugal dedicada ao prazer da mulher", segue 366 contas e não actualiza a sua página desde Março. Estes perfis servem como meio de divulgação dos respectivos websites das lojas.
Adoptemos novamente a estratégia dos pontos. Ponto 1: é bom ver que não só o Presidente segue duas sex shop, como também não se limita geograficamente. Uma é no Ribatejo, outra é no Norte. Siga para a frente homem, toca a adicionar todas as lojas por esse Portugal fora. Para quê restringires-te apenas a dois distritos? "Ah e tal eu sou Presidente, se calhar não fica bem". Oh Aníbal, já perdias uns minutos a olhar para o que o teu staff anda a fazer nas contas que te representam, digo eu. Ponto 2: o facto de seguires "a primeira sex shop dedicada ao prazer da mulher" pode querer dizer muita coisa. A verdade é que sempre ouvi dizer que uma vida sexual activa e sem qualquer tipo de pudor é meio caminho andado para um casamento feliz e duradouro. Se isto for tudo para manter a Maria contente, então tens a minha benção. Sim, que isto de a senhora já ter uma certa idade não quer dizer nada. Por outro lado, também pode ser aquilo que eu já tinha referido, uma mera distracção de toda a burocracia presidencial. Pronto, quer dizer... Se te queres distrair, vê um filme. Agora tem lá atenção ao tipo de filme que escolhes. Não é para te ofenderes com isto filho, é só um conselho de amiga.

O DN procurou desde 28 de Setembro obter um comentário da assessoria de imprensa de Belém, por mail e telefone (para perceber os critérios usados na gestão dos perfis do Twitter), mas a única resposta obtida foi que "se o senhor [assessor] não atende, é porque não quer responder".
Só eu é que sei as vezes que peguei no bendito do telefone e liguei para tudo quanto era número associado a Belém. Quando me identificava, só faltava a senhora dizer "você está a chatear-me outra vez?!"...mas com outro tipo de palavreado. Isso ou então a senhora começar a convidar-me para ir lá tomar um cházinho. "Olhe, já que agora somos tão amigas, não quer vir cá ter para irmos lanchar juntas? Eu tenho meia-hora e você?". Se bem que, tendo em conta a maneira como os telefonemas terminavam, ainda me arriscava a levar com o bule na cara. Anda aqui uma pessoa a ser educada e simpática e afins para a coisa depois se resumir a isto:
Eu: Pronto, okey, então muito obr...
Senhora de Belém: Okey, adeus *clic*
E pronto, é este o tratamento que uma aspirante a jornalista recebe quando quer tentar descobrir alguma coisa que, muito provavelmente, vai embaraçar alguém. Mas pronto, a notícia saiu e até agora não recebi nenhum telefonema a convidar-me, muito educadamente, para desaparecer do País. Se isso acontecer, ao menos que seja para um sítio onde haja acesso à internet. É só isto que peço.