15.10.11

diário de bordo

Ainda é de noite mas as pernas já estão bem acordadas. Os passos apressados de quem não se pode dar ao luxo de perder o comboio enchem os ouvidos de quem já tinha chegado. Nem o sol se levantou e já anda tudo numa correria, afirma em surdina uma senhora a quem os dedos sem força já não permitem o apoio seguro no corrimão das escadas que dão acesso à estação. Com um simples gancho preto a contrastar no meio dos seus cabelos brancos, a senhora vai ficando para trás, as suas palavras abafadas pelo estrondo que a pressa das pessoas gera. 
No comboio, o frenesim de arranjar um bom lugar torna as personalidades mais calmas nas mais territoriais. É como se estivessem a jogar o jogo da cadeira e, de repente, a música parasse. Correm em direcção ao primeiro banco disponível e, num movimento brusco, sentam-se e erguem o pescoço altivamente, com um ar vitorioso. Fitam a pessoa que ficou de pé com o mesmo olhar que os vencedores olham os vencidos no final de uma guerra. 
São 7 da manhã. O único som que invade a carruagem é o barulho do comboio a travar sobre os carris. Chegámos à primeira paragem do percurso, uma cidade que já viu melhores dias, que já teve aquilo que todas as cidades aspiram: vida. Entra um rapaz de cabelo preto e comprido e uns óculos de massa azuis-escuros que segue até ao fundo da carruagem para se sentar no único conjunto de bancos que está livre. Na mão, quase tapada pela manga da camisola vermelha que envergava, um dos grandes clássicos literários: Thomas Elliot. Marcado a meio, e já bem gasto, as questões e comentários começam a invadir a cabeça de quem vê o jovem passar: Tão novo e já a ler Elliot? Será que o livro é dele? Deve ser para um trabalho, de certeza… 
No lado oposto ao que o rapaz se sentou, está uma morena que vai redigindo no seu caderno cor-de-rosa. Com a mão esquerda elegantemente apoiada no queixo, deixa a caneta dançar ao longo das folhas A4 que, se pudessem falar, contariam histórias sem fim, de reis e rainhas, princesas e sapos, dragões e cavaleiros. Histórias com que todas as meninas adormecem, ao longo da sua infância, e que as acompanha durante toda a sua vida. Ao seu lado, um rapaz prepara-se para recuperar o sono interrompido pelo despertador, enquanto selecciona a banda sonora que o vai acompanhar durante os próximos 30 minutos e procura os auscultadores. Mais um que se vai alienar do mundo, penso, enquanto desvio o olhar para um conjunto de quatro senhores que, apesar da idade aparentada, têm o espírito de quem acabou de fazer 20 anos. Uns, de mãos apoiadas nos joelhos, outros a bracejar violentamente enquanto acordam a carruagem com as suas gargalhadas profundas. 
Ao meu lado, uma aparente académica, que desde o início da viagem está a tentar avançar, a todo o custo, numa sebenta universitária. Medicina, parece-me. A panóplia de cores que adornam as folhas que a estudante relê enquanto desvia os seus cabelos ruivos, que lhe teimam em tapar a vista, dão a entender que a matéria já está estudada mas não completamente dominada. De repente, suspira, levanta a cara e desvia o olhar para a janela, passando a acompanhar o movimento das casas e das árvores, que tão depressa apareciam como desapareciam. 
Lá mais à frente, uma controvérsia recatada entre o que parece ser um casal. A mulher quer manter a conversa em dia e o homem quer descansar. Depois logo dizes que estás cansado e também não falas, ou pensas que não te conheço? 
Este aqui mais perto, entre os 40 e os 50 anos, vai tomando conta do que se passa fora do comboio, do que se passa no mundo. Folheia o jornal de modo firme e a uma velocidade constante, como quem já não espera grandes surpresas por parte de quem manda ou deixa de mandar. 
Quando dou por mim, já estamos no fim da viagem. A morena guarda o seu caderno na mala e encaminha-se para a porta, enquanto tenta manter o equilíbrio que se espera de alguém que esteja de saltos. O casal, de mãos dadas, aguarda, expectante, que o botão da porta fique verde para que a rotina possa prosseguir. A estudante de Medicina e o rapaz com o livro de Thomas Elliot também se encontram no meio de uma multidão que não se conhece de lado algum mas que já é familiar entre si. 
A porta abre-se. É tempo de seguir com o dia, no mesmo passo acelerado com que o começámos.

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