Coitadinha olhava alternadamente para o copo e para o amigo, sem perceber muito bem que fazer. Será que devo chamar a Polícia? Mas ele depois vai achar que sou uma bufa... Se calhar devia deixá-lo explicar o porquê de estar aqui, pensou, ao mesmo tempo que bebia o conteúdo do copo num só trago. A beberes com essa velocidade, deduzo que estejas pronta para me ouvir, respondeu Coisinha Sexy, já sentado numa ponta do sofá e esperando que a amiga se juntasse a ele. Coitadinha, hesitante, sentou-se na outra ponta e olhou para ele como quem diz "Vá, desembucha". Foi o que ele fez. Desembuchou sobre como os primeiros dois meses na prisão tinham sido o maior inferno da vida dele, como os outros presidiários o olhavam, qual torrão de açúcar no meio de uma multidão hipoglicémica, como se começou a dar com El Papi, um dos bosses da ala em que se encontrava, como começou a depender de El Papi para sobreviver naquela casa dos horrores. El Papi?! Que raio de nome poderoso é esse? Parece nome de caniche!, interrompeu Coitadinha, arrependendo-se imediatamente de ter aberto a boca assim que percebeu que o seu estômago não estava a aguentar muito bem tudo o que tinha lá dentro. Coisinha Sexy ignorou o comentário da amiga e continuou, sabendo que o que iria contar de seguida ia causar a maior reacção de incredibilidade de sempre em Coitadinha. Continuou, explicando que El Papi vinha de um país que ficava para lá do sol posto, onde era chefe de uma rede de tráfico de caniches, animais considerados exóticos naquela parte do mundo. Continuou, dizendo que El Papi o achou merecedor da sua confiança, dando-lhe a tarefa de continuar com a rede e arranjou maneira de forjar a sua morte numa rusga de prisão fazendo com que agora pudesse andar em liberdade sem (grandes) problemas. Continuou, afirmando que a casa da amiga foi o primeiro sítio relativamente seguro que lhe passou pela cabeça quando pensou que tinha de passar a noite nalgum lado. A esta altura Coitadinha já não sabia que reacção ter. Se abrisse mais os olhos, se se começasse a rir que nem uma doente mental, se dissesse a Coisinha para parar de inventar e contar a verdadeira história. Mas ao olhar para ele percebeu que era aquela, que ele estava a contar a verdade. Acho que vou vomitar, murmurou ao mesmo tempo que absorvia toda a informação que tinha acabado de receber. Não é caso para tanto Coitadinha, os animais não são mortos nem nada disso, disse Coisinha levantando a cara, apenas tendo tempo para ver a amiga a correr disparada em direcção à casa-de-banho enquanto despejava a sua bagagem extra. Até reagiu bem, não me tentou espancar nem chamar a polícia. Pode ser que a situação não tenha que piorar, pensou Coisinha ao mesmo tempo que o seu telefone começou a vibrar. Sim...Encontrei, estou na casa de uma amiga... Não, ela está cá...Sim, eu próprio me encarregarei disso, não te preocupes. Ela não vai dar mais um pio...
1 comentário:
pobre coitadinha, sabe lá ela o que vai encontrar quando acabar de vomitar...!!
( gostei muito! )
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